O diálogo mais difícil que tive, mas o mais libertador

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Estávamos conversando, disse que precisava dele, e a resposta dele seguiu o padrão de sempre, que foi:

– Aconteceu algo? Não posso, tenho algo para fazer, mas dá para conversar… pode ir falando.

Minha mão tremia, meus olhos encheram d’água e, em meses, eu decidi pela primeira vez ser sincera com ele — mas principalmente comigo mesma.

Eu tinha que ter coragem, eu precisava sair desse ciclo.

– Não… eu não quero “ir falando”. Cansei de você sempre ter algo para fazer para qualquer um e nunca para mim.

– Calma, você está exagerando. Você sabe que eu vinha passando por momentos difíceis e só por isso eu tenho evitado te ver. Não tenho sido uma boa companhia.

– Faz um tempo que EU TAMBÉM não tenho estado bem, mas a verdade é que não me lembro da última vez que você tenha perguntado. Aconteceram coisas essa semana que revelaram os piores sentimentos de dentro de mim, me transformaram numa pessoa que eu não reconheço. Eu tive uma das piores crises de ansiedade da minha vida… e mesmo eu sendo uma pessoa que eu sei, que durante todo esse tempo você pôde contar… eu não pude contar… não pude e não posso, e só agora consigo enxergar que, na verdade, eu nunca pude.

– Você sabe que isso não é verdade.

– Você sabe que é. O pior é que eu já assisti esse filme antes, mais de uma vez, e mesmo sabendo disso, eu achei que dessa vez seria diferente… mas não foi, o enredo foi EXATAMENTE IGUAL: você veio, me usou, foi embora, nunca mais voltou e ficou fingindo que se importava além disso, sabe?! Aí eu fiquei aqui, toda compreensiva, toda amiga, toda companheira mesmo… até você ficar bem, e agora que você está bem, não precisa mais de mim né? Porque é isso… tem sido há um bom tempo uma via de mão única… na verdade sempre foi, e precisei tomar esse MEGA TOMBO que tomei essa semana para perceber isso.

– Para com isso, você entendeu tudo errado. Óbvio que me importo com você, mas esse é meu jeito… meus amigos sabem disso, meus pais sabem disso. Eu sou assim.

– É assim, e não está nem um pouco disposto a melhorar. Ou está?

– Eu não consigo… você sabe que já tentei em terapia, mas…

Nessa hora eu o interrompi, e deixei que a parte racional minha falasse mais alto do que as lágrimas que jorravam dos meus olhos:

– Não quero que a gente se veja mais, não quero que a gente converse mais, não quero saber com quem você vai ou não vai sair essa semana, não quero mais receber vídeos engraçadinhos para me manter entretida, porque eu percebi que não tem me feito bem manter esse “contato” com você.

– Você está exagerando.

– Estou tomando essa decisão por mim, não por você, até porque para você é bem cômodo né? Eu juro que cansei de ser feita de idiota, de deixar as pessoas fazerem eu me sentir insuficiente. Cansei de me sentir usada, cansei de ser usada e as pessoas quererem estar comigo quando é conveniente. Cansei. Simplesmente cansei.

(digitando…)

– Não precisa nem se dar ao trabalho de responder. Porque de textão e áudio pseudoesclarecedores, essa conversa já está cheia. Espero sinceramente que você aprenda a ter mais responsabilidade afetiva com as pessoas que vierem a cruzar o seu caminho, porque de cara babaca o mundo já está bem cheio.

(digitando…)

Antes mesmo que eu lesse a resposta bloqueei o contato dele, apaguei o número, desliguei o celular e fui deitar. Eu não precisava daquilo, nunca precisei. Nunca chorei tanto quanto aquela noite, nunca me senti tão sufocada quanto aquela noite, mas na manhã seguinte, eu nunca me senti tão limpa, tão livre e respirando um ar tão puro.

Foi libertador me libertar de uma situação que eu vinha me mantendo aprisionada.

Diandra Ferracini

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