Uma solidão tão cheia quanto a minha | Me Apaixonei

Uma solidão tão cheia quanto a minha

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Há tanta segurança aqui no lado de dentro! Solidão. Pergunto-me se, algum dia, a minha solidão será amada pela solidão de um outro alguém. E se a noite estrelada, lá fora, brilhará, como em uma espécie de concerto, para nós dois. Por nós dois. Será que haverá completude quando as duas solidões se fundirem, quando ambas encontrarem conforto uma na outra, quando ambas se reconhecerem como tais?

Por outro lado, enquanto nada disso se concretiza, cabe a mim amar minha própria solidão. Amo-a tanto, que me dói ter que abandoná-la, nos momentos em que me deparo com outros seres. Minha solidão, certamente, não combina em essência com a deles. Sinto-me, então, mais sozinha, mais solitária. Sinto-me dentro de um mundo de mentirinhas, com pessoas de mentirinhas, constituído por sentimentos tão reais que são, infortunadamente, obrigados a se falsearem. Dor mórbida, que me estilhaça até o âmago da alma. Dor esta que insiste em me matar, dia após dia, sem nenhum remorso.

Insegurança é o que brota, em meu coração, ao observar que somos formados por tantas dores, que temos como base a indiferença, que temos como refúgio a abstração da esperança, que buscamos apoio naquilo que é tão bambo quanto nós, que vivemos em um movimento de busca a algo inexistente, impossível, utópico, que criamos armaduras diante das frustrações, que abortamos sentimentos e desejos em prol de uma sociedade, de acordo com o que o roteiro pré-escrito nos manda, quando, por dentro, sentimo-nos tão anulados. Segurança, por outro lado, brota da minha solidão, do meu vazio sempre tão cheio, do meu universo tão particular, da minha subjetividade tão clandestina, do meu querer tão indiscreto, dos meus sentimentos tão obsoletos.

Mas, no momento em que, a noite reaparece do outro lado da janela, do outro lado da mesma que separa o meu mundo do mundo lá de fora, eu recrio a ilusão em minha mente, eu permito-me fantasiar sobre sentir-me feliz, com minha solidão compartilhada e confundida com outra solidão. Sonhar debaixo das estrelas parece tão mais despretensioso, mais mágico, mais perto de uma possível realidade! Haverá amor suficiente para que solidões se façam compreensíveis e florescentes, quando reconhecerem-se no barulho da multidão? Haverá paz suficiente entre elas, que seja capaz de adentrar e enfraquecer os pesares que cada uma carrega em si? Haverá energia que consolide seus aspectos tão negligenciados e desprendidos?

Penso em tantas questões, que deparo-me com o medo da loucura. Ela, afinal, bate à minha porta. O tempo inteiro. Jura-me uma vida de tamanha incerteza, que não haverá espaços para tantas indagações, ou melhor, não haverá espaço para pensá-las. Entretanto, ignoro-a e me abraço à minha tão fortalecida solidão. Ela tem a cura e a resposta para minhas tantas dúvidas. Ela tem aquele incrível poder de me afundar em mim mesma e me salvar ao mesmo tempo. Ela é a solidão que brinda à vida, brinda às belezas existentes, brinda e caminha junto da esperança. Ela tem uma imensidão de sentimentos e sinceridades, que não permite sentir-me só. Nem aqui, nem agora. Nem nesta cidade, nem no meio destas pessoas tão vazias de suas próprias solidões. Ela me permite transbordar. Ela me permite acreditar. De certo, há uma solidão tão cheia, como a minha, caminhando por aí. Apenas não se reconheceram, neste tempo e espaço, ainda. Repito: Ainda.

Bruna de Oliveira

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