E se eu te ganhasse de volta?

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E se eu aparecesse na sua garagem na véspera do seu vigésimo quinto aniversário com as palavras que você sempre precisou ouvir mas nem sempre estiveram alojadas na minha garganta? E se você corresse para fora para me encontrar e eu contasse a você segredos que nunca contei quando estávamos deitados um ao lado do outro, com medo de que uma palavra errada ou um movimento estranho pudesse fazer tudo desmoronar?

E se você ouvisse minha voz mais uma vez? E se você me pegasse em seus braços e me beijasse com a determinação crua que tinha aos dezoito anos, quando ainda éramos tão tímidos perto um do outro que não tínhamos certeza se encontraríamos uma maneira de ficar juntos? E se começarmos tudo de novo, ali mesmo naquela garagem?

E se você nunca tivesse partido? E se ainda vivêssemos naquele apartamento — que estava mais pra “apertamento” — com a pia pendurada sobre o vaso sanitário e os movimentos nodosos e nervosos de nossos corpos nunca se encaixando no espaço que havíamos criado um para o outro?

E se a zelosa senhoria governasse o prédio, estragando as noites com seus discursos semidecifrados sobre salvação e redenção e o enxofre que espera aqueles de nós que não acreditam?

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E se acreditássemos um no outro? E se eu tramasse erros que cometi ao longo dos anos e quando parasse de pensar em você houvesse um exército de linhas minúsculas e tortas traçadas na areia? E se eu disser que sinto muito?

E se você voltasse para casa todas as noites com a TV ajustada no volume que você gosta, com seu jantar favorito esperando na mesa e seus pais conversando comigo pelo outro lado da linha por muito tempo porque eu decidi tentar? E se eu mudasse por você? E se você mudar por mim também?

E se, em uma estranha reviravolta dos nossos caminhos, nós dois terminássemos com amnésia? E se esquecermos tudo um do outro — todos os nossos nomes e aniversários e segredos e fracassos e triunfos, como aquele filme em que Jim Carrey teve que se esconder debaixo da mesa da cozinha de sua mãe em seu pijama esperando que sua mente nunca fosse recuperar?

E se meus olhos cruzassem com o seu no supermercado, passando pela seção com as azeitonas que sempre comprava e me pegasse enrugando o nariz de nojo e achasse isso cativante em vez de frustrante de novo? E se você perguntasse meu nome? E se eu te desse bola?

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E se você me levasse para um encontro — doce e simples, naquele velho bistrô italiano que sempre amávamos? E se minha risada parecesse familiar para você, e se meu corpo se encaixasse com o seu, e se nossas mentes não conseguissem se lembrar, mas nossas mãos nunca se esquecessem do que antes significava tocar um ao outro? E se fosse mais estranho do que jamais experimentamos, mas mais simples do que jamais poderíamos ter sonhado?

E se começássemos de novo desde o início — cada primeira vez, cada deslize, cada barreira que superamos ao longo do caminho? E se tentássemos desta vez?

E se virássemos à direita em todos os lugares em que viramos à esquerda, e se a gente prevalecer em todas as lutas em que desistimos, e se gritássemos um com o outro com tanto fervor que todos os vizinhos acendessem as luzes e andassem do lado de fora da nossa porta com preocupação e ainda assim escolhemos ficar, todas as vezes?

E se minha mão segurasse a sua no nosso aniversário de 53 anos de casamento e eu soubesse que não havia melhor decisão que eu poderia ter feito do que passar minha vida inteira amando você? E se nós fizermos isso? E se nossa história durasse uma vida inteira e se tornasse o título completo de um livro?

Ou e se eu estiver errada?

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E se eu soubesse, desde o segundo em que você saiu pela porta, que só há um final para esta história? E se tentássemos tudo o que restava para tentar e descobríssemos que nenhuma palavra, nenhuma amnésia, nenhuma reviravolta dos nossos caminhos seria o suficiente para nos salvar agora? E se eu deixar você ir de uma vez?

E se continuássemos com nossas vidas e fôssemos felizes e realizados e às vezes perdidos no caos de tudo, mas uma coisa que nunca conseguimos agarrar foi um ao outro? E se descobrirmos que não precisamos mais um do outro?

E se algum dia descobríssemos um tipo de felicidade tão incompreensível que nem sequer pensamos em experimentá-la? E se nossas vidas fossem feitas apenas para se cruzar por tempo suficiente para criar o contraste de que precisávamos para continuar vivendo o resto?

E se nossas mãos se acostumassem com as mãos de outra pessoa no final de nossas vidas incríveis e revivessem memórias que não poderíamos imaginar do lugar onde estamos agora?

E se eu nunca te reconquistar?

E se — por mais que odiaríamos admitir — esse fosse o final mais feliz de todos?

Foto: Freepik

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