Tabu: amor? | Me Apaixonei

Tabu: amor?

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O que há de ser o amor senão pura antítese? Um paradoxo inexplicável, até mesmo maldoso. Desde a Antiga Grécia o amor era retratado como algo que feria, machucava – tendo como representação a flecha do Cupido –, ao mesmo tempo em que Eros trazia certo arroubo ao amar. Como Petrarca já uma vez disse “Se boa por que tem ação mortal?/ Se por que é tão doce seu tormento?”.

Para amarmos alguém, devemos achar neste indivíduo algo simétrico e harmônico, de forma que até a mais ignóbil atitude de tal nos faça suspirar profundamente. Todos queremos aquele amor idealizado que, de acordo com a lírica amorosa camoniana, é puro e espiritualizado.

O amor surge do racional para, afinal, notarmos que é algo irracional. Por que você o/a ama? De forma vaga, mas supostamente racional, responderia listando os melhores adjetivos e as qualidades mais bem escolhidas dessa pessoa. Mas, agora, de fato, por que você o/a ama? Não há realmente uma explicação para isso. Todo amor trará dor. Todo o amor trará de certa forma algum sofrimento. Geralmente, quando não temos um amor recíproco. Parece até ser uma coisa normal – um amar o outro de volta –, mas na realidade é uma coisa um tanto quanto improvável. Há de ser um momento no qual duas pessoas se apaixonam no mesmo período. Com tantas opções, vão escolher justamente aquela. É muita sorte. A chance de você ser a pessoa “escolhida” é de uma em sete bilhões. Então, pra que amar, se apaixonar?

Porque o prazer em amar compensa a dor da falta.

O amor não precisa ser necessariamente correspondido para você sentir aquela dose de arroubo da qual antes citei. Isso vem até com um frugal “oi” daquele de interesse. Qualquer mínimo gesto fará a diferença.

É um sentimento de fato inexplicável. Faz entrada abrupta, não pede licença, é ígneo, belicoso, promíscuo, pérfido; ao mesmo tempo em que aprazível, pacífico, inócuo, modesto, puro, zeloso. Amar é não procurar sentido, ou respostas, uma vez que as perguntas não mais precisam ser respondidas. É achar alguém com quem você não precise se preocupar em esconder os “podres” e exibir os dotes. É viver na constante antítese e entender tudo que se passa. É ler Luís de Camões e ver todo o sentido em cada palavra. É legalizar o proibido, sorrir no desgosto, flutuar estando no chão, e sonhar no pesadelo. Amor é nada mais, nada menos, que amor. Quem sente, não precisa entender.

 

“Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.”

– Soneto do amor maior (Vinicius de Moraes)

Mari Moreno

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