O fim | Me Apaixonei

O fim

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O som da porta batendo rasgou o silêncio da manhã de domingo e fez suas pernas tremerem. Agora só podia ouvir seus passos duros e certeiros desaparecendo à medida que ele se afastava mais e mais em direção ao nunca mais.

Seus olhos tristes repousaram em seus sapatos baixos, que tinha escolhido cuidadosamente para não ficar tão mais alta que ele. Em vão, pois nunca havia se sentido tão pequena em toda sua vida mesmo dentro do seu corpo de 1,70 de altura. O ar pesado do corredor caiu em seus ombros fazendo-a se curvar, seus lábios se abriram para que tomasse uns goles de ar, o coração pulou uma batida e foi derretendo em seu peito. A chama tremeluzente que habitava seus olhos se apagou com a fúria de lágrimas pesadas que deixaram um rastro de memórias em suas bochechas coradas.
Fez alguns cálculos rápidos em sua cabeça: Foram cinco semanas de trocas de conversas, cinco encontros, 120 horas de calor, beijos, risadas na madrugada abafadas pelo travesseiro, olhares que diziam muito mais do que palavras e um gosto que não lhe saía da boca. Pelos seus cálculos, demorou uns quatro minutos e meio para que ela se apaixonasse por ele. Estavam sentados em um bar qualquer, ela com o cotovelo apoiado na mesa tentando segurar seu queixo para não cair tão escandalosamente e denunciar o que estava sentindo.
Tentou varrer as memórias para fora de sua cabeça e seguir até o elevador. Perplexa, percebeu que não conseguia se desvencilhar do cordão que a conectava a ele. Estava parada, amortecida com os tapas que a realidade lhe deu: você nunca mais irá vê-lo. Quis girar e bater em sua porta, entrar de volta em seu apartamento e afundar sua cabeça em seu peito, o lugar mais seguro que conhecera. Deixar seus braços lhe envolverem, respirar toda a sua alma e pedir para Deus parar o tempo para sempre enquanto estivesse em seus braços.
Vozes ecoavam em sua cabeça travando uma batalha para saber quem tinha razão: “Quem mandou apostar todas as fichas nesse cara?”, “Calma, você deu o seu melhor, azar o dele”, “Como você é estúpida, não aprendeu nada depois de todos esses anos?’ “Pare de se martirizar, não tinha como você saber, vai pra casa se curar”.
Marchou em direção ao elevador e seu coração triste foi dizendo adeus em silêncio. Adeus a tudo que criou na sua cabeça, adeus às cervejas que nunca mais iriam dividir, aos arrepios na espinha, ao cheiro do seu pescoço, às sardas que enfeitavam seus ombros…nunca mais iria tentar decifrar aqueles olhinhos espremidos tão pequenos, mas que diziam tanto… nunca mais iria roçar seu nariz no dele, o nariz mais bonito que já tinha visto.
Foi capturando todos os detalhes daquele prédio que nunca mais veria, o chão que nunca mais pisaria e aquele cheiro da manhã de domingo. Entrou no táxi e afundou seu corpo cansado no banco de trás, enquanto tentava afastar todos os sentimentos que tomavam conta de seu corpo. A boca estava seca com o gosto amargo da derrota. O coração pulsava em seus ouvidos, e as mãos suadas repousavam em seu colo. O fôlego lhe faltava e toda tristeza lhe dava náuseas e tontura. Por um momento, tudo que viu foi nada…
Ao chegar em casa largou a bolsa no chão, se livrou dos malditos sapatos baixos e sentou-se no sofá. Olhou mais uma vez para o celular na esperança de uma mensagem, mas não havia nada. Percebeu que ainda era muito cedo, e há apenas uma hora ainda estava com ele, mas parecia que já tinha se passado uma vida inteira. Pensou que não era justo ter um amor arrancado assim, de forma tão brutal.
As memórias foram tomando conta de tudo, desde os dedos do pé até sua cabeça, e quando não cabiam mais nela começaram a transbordar: lágrimas que brotavam, um choro baixinho, soluços, e tudo isso foi inundando sua sala, e todo seu apartamento. Estava imersa na vastidão cruel da solidão, envolta em suas lembranças, sufocada pelo pesar.
Todos os pensamentos jorravam cada vez mais fortes, pesados e amargos, e fraca como estava não conseguiu resistir e lutar.
Se afogou na saudade. De tudo que foi, de tudo que não será.

Enviado por Thais Moreno

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