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Não deixe o nosso café esfriar

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Sentei-me na varanda, naquela manhã gelada, ao som dos carros passando pelo concreto e aos poucos cantos dos pássaros que pairavam pelo ar; era uma manhã fria, porém, com nuvens branquinhas no céu e um sol brilhante, em uma tentativa falha de me aquecer.

Comecei a fazer um café na cozinha do lado de fora, coloquei a água para ferver e sentei-me.

Enquanto esperava, me encontrei em um daqueles devaneios nostálgicos. Comecei a imaginar mais um dia o quanto gostaria da sua visita em uma dessas manhãs frias. Pensei em como meu coração se alegraria em sentir o cheiro de um café fresquinho junto a você; a gente ama esse cheiro.

Em um gesto eu iria aproximar a xícara de mim e tomar o primeiro gole bem quente, sentindo todo meu corpo se aquecer, depois abriria os olhos e veria aquele teu lindo sorriso ingênuo bem na minha frente, me olhando com teus olhos castanhos, quase da mesma cor do nosso café, depois sorríamos juntos e comentaríamos qualquer coisa que nos mantivesse naquele momento.

De repente, ouvi o som da água borbulhando, quase evaporando, e acordei, me deparando com um súbito encontro de realidade: você não iria chegar naquela manhã e nem mais tarde.

Aquele café, tão quentinho, do jeito que você iria gostar, ia acabar fincando em cima da mesa, frio, como aquele dia.

Mesmo parecendo loucura, ou talvez até tortura, às vezes é tão bom imergir nessas minhas saudades cotidianas, é como se o contraste do presente doesse menos quando me encontro com você em minhas lembranças.

É como se todo os dias, enquanto faço meu café, há sempre uma esperança dentro de mim, me dizendo que um dia todo esse desencontro vai fazer algum sentido, e que o café ainda vai estar quentinho te esperando chegar, como se o tempo estivesse também esperando a gente se encontrar, sem deixar nosso café esfriar.

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Um dia desses, quando me peguei cansada dessa rotina nostálgica, comecei a perceber que era preciso talvez esvaziar-me aos poucos de tantas memórias e esperanças nem um pouco fundamentadas.

Queria esvaziar-me das lembranças, assim como qualquer recipiente vazio; como o próprio líquido efervescente, que de tanto se manifestar, em desespero, em algum momento, deixa de existir. Por alguma física, além de sua força, evapora. Deixando apenas uma leve e nebulosa fumaça, perto de algo que um dia existiu de maneira tão concreta.

Mas enquanto eu tentava recomeçar e trocar os velhos hábitos do cotidiano, nosso café continuava ali, tão quente e aconchegante no mesmo lugar, me fazendo lembrar que tem coisas que não precisam mudar, não deviam, muito menos, evaporar.

Por isso ainda continuo minha rotina do mesmo jeito em todas as manhãs; o mesmo cheiro e o mesmo gosto continuam me acordando todos os dias até que algo mude como deveria ser.

E se no fim eu perceber que não consigo mudar, muito menos me esvaziar, eu desisto e insisto em lhe pedir mais uma vez: – Não demore a chegar!

– Não deixe, por mais um dia, o nosso café esfriar.

Jéssica Holtz

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