E troca de vida como se troca de roupa... | Me Apaixonei

E troca de vida como se troca de roupa…

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Ela cansou, simplesmente! De ser boazinha, de ser magoada, de ser julgada e nunca compreendida. Ela cansou de tentar viver uma vidinha medíocre e se convencer de que aquilo era felicidade. Ela cansou de tentar provar ao mundo suas potencialidades enquanto a ele só cabia enaltecer seus fracassos. Ela cansou de viver dentro de uma sociedade moralista, que traça perfis e grita valores enquanto a promiscuidade berra nas veias internas, chamadas submundo.
Tirou o vestido mais decotado e curto do armário. E as sandálias de salto alto pretas, usadas em ocasiões especiais. No lugar da maquiagem clean, a mais forte e marcante que conseguiu fazer, ressaltando, principalmente os olhos, espelhos d’alma e a boca, veneno do diabo. No cabelo, um toque meio rebelde desarrumado. No corpo, um óleo afrodisíaco que esperava hipnotizar até árvore. As bijus, brilhantes, para ofuscar a quem apagou seu brilho por muito e muito tempo. Um perfume cativante, para que fosse lembrada pelo cheiro. E na bolsa, nenhuma dose se juízo, uma pitada de revolta, seu batom vermelho veneno e a vontade de se jogar na vida como nunca antes havia feito.
Sua primeira parada foi num bar estilo pub, onde pediu um cerveja que não conhecia ao som de uma música nunca ouvida e pensando se ainda era tempo de voltar atrás. Um gole, dois goles, três goles. O suficiente para encorajá-la ainda mais na sua decisão de ganhar o mundo, naquela noite. Sempre achou meio sedutor aquelas mulheres que entravam sozinhas em bares e pediam bebida e refletiam sobre a própria vida. Reflexão essa que para ela, já tinha durado demais. Pensada demais e agia de menos. Não, nada de pensar, essa noite não! E… “mais uma, por favor!”
Ao seu lado, sentou-se um jovem em estilo americano, com roupas transadas, olhar instigante, nenhuma palavra e de perfume marcante. Em silêncio, os dois disputavam quem pedia “mais uma” primeiro. Entre tantos “mais uma”, já estavam conversando como se fossem velhos conhecidos, confidenciando-se sem nenhum pudor. Ela pensava que aquela noite seria sua libertação. Sua transgreção na construção do seu eu. Ele, deveria pensar em quando as palavras necessárias para crira uma intimidade não seriam mais necessárias para chegar ao beijo. A música de fundo agora era “used somebody” e naquele momento, era tudo o que intimamente, os dois queriam.
Perderam o pudor e começaram a dançar se desejando, se instigando, se querendo até não aguentar mais. Saíram como dois noivos fugidos de sua própria festa de casamento, denunciando em suas risadas despretensiosas e amassos, suas reais intenções. Sob a meia-luz de uma chuva fina, caminharam em direção ao apê dela. Sua casa, sua decoração e suas histórias construídas nela em nada condiziam com suas ações inconsequentes, agora. “O que diriam os vizinhos?” – pensava ela. “Te quero agora”, dizia ele. E sem prolongar mais, sem sufocar seu desejo e sem sentir culpa, ela se despiu, se entregou, se mostrou. Sem pudores, ele a fez mulher, a mulher mais amada e desejada daquele metro quadrado, do quarteirão, do bairro e de toda a vida dela, muito provavelmente. Suor, gemidos e risos, abraços, beijos e amassos. Depois de uma frenética transa, que ela ainda pensava que era uma noite de amor, dormiram entrelaçados, deixando-se baixar a guarda e adormecer sendo quem era, em sua nudez, simplesmente.
Na manhã seguinte, um certo desconcerto. Em meio ao acordar sem saber ao certo aonde estavam, catavam suas roupas espalhadas pelo chão. Ela lhe ofereceu um café, enquanto ele usava o banheiro para dar um jeito na cara. Olhando-se no espelho, ele via as marcas da noite em seu corpo, em forma de arranhões. Ela, na cozinha, ainda sentia o perfume e as mãos quentes apalpando seu corpo, fazendo com que ela se sentisse desejada, necessária como nunca. Depois de alguns goles de café e um tímido sorriso seguido de um abraço, um tchau meio murcho para uma noite caliente. Ela abriu a porta – na intenção dele voltar. Ele seguiu em frente com a vontade de ficar. Àquela hora da manhã, nenhum dos dois sabia mais o que queria, como haviam determinado na noite passada. Queriam usar e serem usados, mas após isso, não queriam se desprender.
Entre os dentes, ele pronuncia “Eu te ligo”, e mais rápido que a sua vontade, ela atira a frase “não precisa”. Tanto ela sabia que ele ligaria, como ele sabia que ela queria. Ambos sabiam que o encontro marcado, era qualquer outra noite em que se esbarrassem no bar. Ele entra no elevador e ela admira o seu ir. Uma cena quase romântica.
Se olhou no espelho, satisfeita da sua realização. Mas, incerta quanto a sua conduta de agora em diante. E agora, quem ela seria, de fato? Resolveu deixar pra lá e curtir seu frenesi o resto do dia. O cheiro daquele homem, com cara de homem, com beijo de homem, com gosto de homem, com pegada de homem, com olhar de homem ainda estavam impregnados na cama, no ambiente, nela. E ela resolveu se embrigar dele um pouquinho mais.
Sem saber, na calçada, ele admirava a janela do apê, com alguns vasos de planta e borboletas na varanda. Pensou que seria bom voltar. Mas, que seria melhor ainda ser convidado a voltar…
Ambos puseram em seus smartphones a trilha sonora da noite do casal “Used somebody” e seguiram com o dia, fazendo ressurgir ao longo dele, pequenas lembranças de uma noite inesquecível”.
Fernanda Miceli
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