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Copo cheio, coração vazio

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Juntou todas as economias que ainda tinha, o mês já estava no final, e rumou para o bar mais perto que conseguiu pensar. Vestia sua, como orgulhosamente costumava chamar, roupa de guerra: Um salto bem alto, o vestido preto-básico favorito e um batom vermelho pra ninguém botar defeito. Afinal, a guerra era silenciosa e contra o pior inimigo de uma mulher: sua auto estima. Tudo de feio que ela sentia por dentro, tentava compensar por fora.
Sentou no balcão e pediu uma dose da bebida mais forte e ao mesmo tempo barata que encontrou no cardápio – o gosto pouco importava, não seria o suficiente para tirar o amargo que há dias sentia na boca.
Ignorou as cantadas do barman, do homem que sentou-se ao lado no balcão achando que teria espaço para conversar, dos caras em uma mesa lá no fundo e de qualquer um que passasse por ela fazendo comentários sem moderação alguma.
Estava fechada para balanço.
E mesmo que não estivesse, não era com essas cantadas de baixo calão que alguém teria alguma chance com ela. Sua alto estima estava tão baixa quanto se pode estar, mas no fundo ela sabia que era só uma fase. Dias atrás ela era a mulher mais confiante que conhecia. E com o remédio certo, torcia ela que estivesse no cardápio, voltaria a ser aquela mulher.
O que havia acontecido não era mais o que lhe incomodava. Amores acabam, ela sabia. As coisas nem sempre dão certo e isso não é problema algum. O que realmente lhe incomodava era ter sido fraca. Não fraca por não lutar mais: aquela era uma batalha perdida há muito tempo e os dois soldados estavam feridos demais. Mas fraca por ter se deixado chegar àquele ponto. Por deixar que alguém roubasse sua confiança, sua felicidade e – quase não podia admitir para si mesma- sua vida.
Havia se deixado de lado, colocado sua felicidade em segundo plano  enquanto assistia a felicidade do outro, o qual demorou tão mais do que devia para perceber que não se importava com a dela.
Deixou de escolher o filme no cinema, o restaurante onde iriam jantar, o sabor da sobremesa. Deixou de pintar os cabelos, as unhas e seus quadros.
Esqueceu os planos de fazer um curso de arte fora do país. Deixou de lado o sonho de estudar naquela faculdade tão conceituada. Desistiu dos planos de morar sozinha, viajar, desenhar. Isso não pertencia a um futuro a dois.
Ela escolheu desistir de si mesma e era isso que, naquele balcão do bar com a companhia da bebida mais forte que podia pagar, ela não podia aceitar. As brigas, discussões e traições pouco importavam. Não era a saudade que machucava. Pelo menos, não a dele. Era a saudade que ela tinha dela mesma que não podia aguentar.
Mais uma dose. E outra. Intercaladas com pequenas crises de choro foram ao final 8 doses a mais e 120 reais a menos.
Saiu do bar quase sem economias, um pouco tonta mas ainda assim muito mais leve do que havia entrado. Não havia acontecido nenhum milagre lá dentro, mas o coração chorou o que precisava chorar, a consciência gritou o que precisava gritar e o fígado sofreu o que precisava sofrer.
Levantou a cabeça e apesar de ainda machucar, sabia que dali em diante, era dona de sua vida novamente e de bônus reconquistara uma velha amiga: sua auto estima.
Karoline Krahl
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